Introdução

Apesar de no uso comum a palavra bipolar ser usada no sentido de “instável” ou “desequilibrado(a)”, em termos médicos ela quer dizer algo bem diferente disso. O transtorno bipolar, também conhecido como transtorno afetivo bipolar ou doença maníaco-depressiva, é um transtorno psiquiátrico, na maioria das vezes grave, de evolução crônica e curso cíclico ou recorrente. Isso quer dizer que, uma vez feito o diagnóstico, por um médico psiquiatra, é importante que o paciente saiba que apesar de a doença não ter cura, tem controle e que para isso vai requerer o uso de medicamentos que controlam a instabilidade do humor chamados de estabilizadores do humor além das medidas não farmacológicas essenciais para o adequado controle da doença.

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Sinais e sintomas da doença

O diagnóstico do transtorno bipolar é clínico e requer uma avaliação pormenorizada do funcionamento psíquico e comportamental do indivíduo nos últimos meses e ao longo da vida como um todo. De forma didática, o transtorno recebe esse nome porque é marcado pela alternância entre duas fases opostas de estados de humor, a depressão e a mania/euforia. Embora esta seja a descrição da forma clássica da doença, na prática, o que se observa é que os indivíduos com transtorno bipolar passam a maior parte do tempo de doença vivendo em depressão e que a ocorrência de mania (euforia) ocorre apenas em uma parcela pequena de pacientes e na maioria deles os episódios de elevação do humor e da energia são leves e podem passar despercebidos.

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O episódio depressivo no transtorno bipolar é igual ao episódio depressivo no indivíduo com transtorno depressivo maior (doença que o indivíduo só experimenta períodos de depressão, sem fases de mania ao longo da vida), nele o indivíduo começa a apresentar um período de humor deprimido (tristeza, culpa, inutilidade, pessimismo, desesperança, desvalia e pensamentos negativos que podem inclusive ser de morte e suicídio) que dura meses e associado a isso vários sintomas físicos como redução da energia, fadiga e indisposição além de uma redução da capacidade de sentir prazer por atividades antes prazerosas. Ocorre uma redução do apetite (embora em alguns casos observa-se aumento do apetite), insônia (em alguns casos aumento de sono), redução do desejo sexual, lentificação do pensamento e dificuldade de se concentrar em atividades que envolvem o raciocínio. Logo, ao contrário da emoção dita “normal”, as alterações de humor, além de serem mais intensas e persistentes, via de regra, vêm acompanhadas de manifestações físicas intensas e de um prejuízo marcante nas atividades de vida do indivíduo e o mais importante de tudo isso é que não melhora com pensamentos positivos, com “tentar sair de casa para espairecer e esfriar a cabeça” ou com a força de vontade da pessoa, independe dela, é um estado de funcionamento cerebral que independe de fatores que estejam ocorrendo na vida do indivíduo. Embora muitos desses fatores psicológicos possam ser gatilhos estressores para o início da doença, uma vez aberto o quadro, este passa a não depender da vontade do indivíduo.

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Já o episódio de mania (euforia) é o oposto da depressão e verifica-se uma aceleração de todos os processos psíquicos e comportamentais do indivíduo. Verifica-se um período de pelo menos 1 semana de aumento da energia no qual o humor é considerado expansivo, isto é, a pessoa se torna mais desinibida, mais confiante em si, com aumento dos planos e da auto-estima. Pensa de maneira mais rápida, inclusive sentindo que os outros estão mais lentos que ela e às vezes fala muito e o tempo todo, interrompe as pessoas nas conversações e se torna muitas vezes arrogante e prepotente. É comum a redução da necessidade de dormir, passa horas na madrugada desenvolvendo atividades profissionais ou de lazer, trocam o dia pela noite em baladas o que os torna mais vulneráveis ao uso de drogas como álcool, cigarro e cocaína. Observa-se um evidente aumento da impulsividade, isto é, fala coisas sem pensar, compra coisas desnecessárias e de forma descontrolada, fica mais desinibido sexualmente, se achando mais sedutor e erotizado, fala mais sobre sexo e alguns casos busca mais pornografia e masturbação ou mesmo atividade sexual. Apesar de parecer um estado agradável e de muita energia que pode ser canalizada para atividades produtivas como trabalho e artes, um episódio maníaco é claramente um período anormal na vida do indivíduo em que os companheiros e familiares percebem que a pessoa está diferente do seu estado normal, com potencial para se colocar em situações de risco (gastos financeiros, perda de emprego, adultério e comportamento inadequado) e que, além disso, cursa com inúmeras alterações bioquímicas em nível cerebral que se caracterizam por um intenso processo inflamatório que pode deteriorar o funcionamento do cérebro a depender da intensidade dos sintomas e da recorrência desses episódios.

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Embora a mania eufórica seja a forma mais clássica descrita, em alguns pacientes o aumento da atividade cerebral pode ocorrer elevando os níveis de energia, de impulsividade, acelerando os pensamentos e aumento a psicomotricidade mas o estado de humor é de depressão, de irritabilidade ou de agressividade (chamamos isso de estado misto de humor ou disforia). O paciente pode apresentar nestes quadros intensa irritabilidade, intolerância às opiniões alheias, impaciência, dificuldade de se acalmar e muitas vezes agressividade. Os indivíduos se queixam de raiva sem motivo e vontade de agredir verbal ou fisicamente quem os importuna. Em uma parcela de indivíduos aparecem também sintomas psicóticos como alucinações auditivas (vozes dentro da cabeça dizendo coisas positivas ou negativas) e crenças delirantes (indivíduo acredita ser alguém importante ou ser capaz de coisas pouco prováveis ou de difícil realização).

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Prevalência do transtorno na população

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O transtorno bipolar acomete de maneira igual tanto homens como mulheres. É uma doença do jovem, com pico de início dos 15 aos 25 anos. Os estudos mostram que a prevalência ao longo da vida de depressão unipolar é da ordem de 17%, isto significa que 17% dos indivíduos vão experimentar pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida. Já a prevalência de todas as formas clínicas que compõem o espectro bipolar chega a 10%. Evidências genéticas mostram que se um parente de primeiro grau apresenta algum tipo de transtorno bipolar, a chance de eu possuir a doença pode chegar a 80%.

 

Considerações finais

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O transtorno bipolar não é uma doença psicológica, mas sim uma doença médica de base cerebral, cujos mecanismo ainda não estão totalmente esclarecidos, mas que cursa com uma instabilização do humor e sintomas físicos. Fatores psicológicos ambientais como eventos traumáticos, perda de emprego, divórcio, violência sexual ou assédio moral têm um importante impacto como gatilho para o início dos sintomas e da doença. Fatores como a privação do sono e a quebra do ritmo de vida diário (hora de deitar-se, horário das refeições, rotina de trabalho) e a ausência de suporte das relações interpessoais podem também influenciar no curso. Oscilações de humor que ocorrem de maneira recorrente, que causam impacto na vida do indivíduo, que interferem com o funcionamento pessoa, social e profissional, e que são uma clara mudança na personalidade de base da pessoa, merecem uma avaliação pormenorizada visando um diagnóstico adequado e um possível tratamento (medicamentoso e não medicamentoso).

Escrito por Dr. Diego Tavares.

 

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