Introdução

Depressão é uma doença médica complexa que pode afetar praticamente todas as esferas da vida da pessoa. A principal característica é um estado de humor melancólico, “para baixo”. Por vezes pode não haver tristeza evidente, mas a pessoa experimenta incapacidade de se alegrar, vibrar e sentir prazer com as coisas. Contudo, a depressão afeta o organismo como um todo, não apenas o psiquismo. Além desses sintomas centrais, a depressão pode provocar uma série de sintomas em várias áreas. No quadro abaixo estão apresentados alguns dos principais sintomas da depressão. Apenas por razão didática os sintomas estão divididos em: sentimentos, sintomas físicos e pensamento.

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Os sintomas precisam ter uma duração de no mínimo duas semanas e nem todos os sintomas precisam estar presentes ao mesmo tempo. Havendo esses sintomas, deve-se suspeitar de depressão. O diagnóstico correto, entretanto, não é feito com uma mera lista de sintomas, e sim através da avaliação de um profissional médico.

Uma doença muito frequente

A depressão acontece em 16% a 20% da população geral durante toda a vida, ao redor do mundo. Num estudo recente da região metropolitana de São Paulo, 10% da amostra de mais de cinco mil adultos entrevistadas tiveram um episódio depressivo nos últimos 12 meses. Outro estudo já havia chamado a atenção para a gravidade do problema e as taxas foram semelhantes (Andrade et al., 1999). Ela ocorre duas vezes mais em mulheres que homens, principalmente na idade fértil e próximo à menopausa. Com exceção da dependência de tabaco, foi a doença psiquiátrica mais comum.

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Riscos e consequências da depressão

A depressão apresenta um quadro clínico complexo e muito prejudicial para o indivíduo, seus próximos e a sociedade de maneira geral. As consequências da depressão vão depender de uma série de fatores, tais como gravidade e duração do quadro depressivo, presença de apoio sócio-familiar e acesso a um tratamento adequado e continuado.

A pessoa em depressão tem sofrimento marcante e baixa qualidade de vida. Estudos mostram claramente que pessoas depressivas tem menos sucesso nos relacionamentos, pior desempenho estudantil e profissional.

Quanto à saúde geral, pessoas deprimidas têm um maior risco de desenvolver doenças cardíacas, doenças osteomusculares e doenças inflamatórias do que o resto da população.

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É um erro comum considerar que as depressões leves causam pouca repercussão na vida do paciente, sendo mais toleráveis. Estudos comprovam que pacientes que apresentam sintomas leves, porém persistentes, acabam por apresentar menor nível de escolaridade, maior índice de desemprego e insucesso na vida conjugal, sendo comum permanecerem solteiros.

Não podemos esquecer o pior dos riscos, contra o maior bem de uma pessoa: o risco de suicídio, sobretudo nos quadros mais graves. Todas as idéias e principalmente as tentativas de suicídio, por mais que pareça um “chamar à atenção”, precisam de cuidados e devem ser levadas a sério.

Causas da depressão

As possíveis causas da depressão vêm sendo profundamente investigadas nos últimos anos, com o avanço da biologia molecular, dos estudos genéticos e de neuroimagem. Apesar disso, as reais causas da depressão ainda não estão bem estabelecidas, mas há uma série de alterações fisiológicas presentes nas pessoas em depressão. Há alterações no metabolismo de algumas substâncias no cérebro, como os neurotransmissores (serotonina, noradrenalina e em menor proporção dopamina) e as substâncias glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA). Os neurotransmissores são substâncias encarregadas de transmitir a processar informações no sistema nervoso. Além disso, em deprimidos há aumento da circulação de substâncias inflamatórias. Também já foram encontradas alterações estruturais no cérebro de pacientes deprimidos (região do hipocampo), alterações hormonais (hipotálamo-hipófise-adrenal) e alterações nos ritmos biológicos (ciclo sono-vigília). Todas essas alterações podem ser revertidas após o tratamento adequado.

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Muitas pessoas acreditam que fatores psicológicos e sociais são a causa da depressão. O estresse pode desencadear depressão em pessoas com predisposição genética, é errado dizer que seja a causa da depressão. Pesquisas atuais tentam identificar alterações genéticas que deixam o indivíduo mais vulnerável ao estresse a ponto de desencadear o quadro depressivo.

Diferença entre tristeza normal e depressão

A tristeza é um sentimento normal na vida de todos nós, assim como a saudade, o medo, a alegria. Ela surge em resposta a alguma lembrança ou alguma adversidade. A tristeza normal pode até nos fazer amadurecer e fortalecer. Quando estamos tristes, em geral conseguimos seguir com nosso trabalho, relacionamentos afetivos e compromissos sociais. Conseguimos reagir e encontramos motivação para superar as dificuldades, ou seja, mantemos a esperança, o ânimo, a força de vontade, energia e um bom raciocínio e concentração. Podemos passar por momentos difíceis, mas não perdemos a capacidade de sentir prazer e aproveitar as coisas boas da vida, quando algo de bom acontece, nem ficamos mentalmente lentos e fisicamente cansados.

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A depressão não é apenas um sentimento de tristeza. Como dito anteriormente, ela aparece junto com uma série de sintomas. Os problemas normais do dia-a-dia tomam proporções exageradas para a pessoa em depressão. A depressão, quase invariavelmente, causa prejuízo em várias áreas, como relacionamentos, trabalho e estudos.

Níveis de gravidade da depressão

Quanto à intensidade dos sintomas a depressão pode ser classificada em leve, moderada ou grave. Em alguns casos mais graves podem ocorrer alucinações (por exemplo, vozes com conteúdo depreciativo) ou delírios. Nesse caso trata-se de um episódio depressivo grave com sintomas psicóticos.

Na depressão leve a pessoa costuma seguir com suas atividades diárias, no trabalho, nos estudos e na vida social. Dá conta dos afazeres essenciais, mas com rendimento abaixo do que poderia, caso estivesse livre dos sintomas. “Toca a vida” com mais dificuldade, esforço e sofrimento. Por vezes a doença passa despercebida e as pessoas julgam o paciente como alguém ranzinza, irritado ou mal humorado. Mesmo na depressão leve há diminuição considerável da qualidade de vida.

Se a depressão for de moderada intensidade, o paciente terá muita dificuldade para realizar suas atividades de trabalho, familiares e sociais. Em geral o grau de sofrimento é elevado e os sintomas, assim como as consequências, serão mais evidentes.

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A depressão grave compromete o desempenho e incapacita a pessoa. Sentimentos de angústia, inutilidade ou culpa são mais fortes, assim como as ideias autodepreciativas, a desesperança ou as idéias de morte. O risco de suicídio deve ser investigado cuidadosamente nesses casos. Sintomas físicos quase sempre estão presentes. Sintomas psicóticos como alucinações (ouvir vozes que não existem, por exemplo) e delírios (crenças irreais, muitas vezes absurdas) podem estar presentes nos casos mais graves, piorando o prognóstico do doente.

Tratamento para depressão

O tratamento é medicamentoso é imprescindível. O medicamento antidepressivo não é um estimulante, portanto não deixa a pessoa eufórica, nem provoca dependência. O tratamento também não incapacita ou entorpece o paciente, muito pelo contrário, quando os sintomas diminuem, o paciente será muito mais capaz de cumprir suas obrigações e desfrutar da vida.

A melhora não é imediata com uso da medicação. Podem ser necessárias semanas até que uma melhora substancial aconteça, é importante persistir no tratamento.

Como em qualquer tratamento médico pode haver efeitos colaterais. Surgindo algum efeito colateral, o médico deve ser avisado. Vários efeitos colaterais são transitórios, sendo mais intensos nos primeiros dias e atenuando-se ao longo de dias ou semanas.

Uma vez que o paciente esteja livre dos sintomas da depressão, a medicação deve ser mantida por pelo menos 6 a 9 meses, mesmo que o paciente tenha melhorado totalmente muito antes desse período. O tratamento pelo período completo evita as recaídas. Alguns pacientes vão precisar do tratamento de manutenção, que é um tratamento preventivo mais longo para evitar o aparecimento de novos episódios depressivos. Este tratamento preventivo pode durar anos ou, dependendo do caso, pela vida toda.

A psicoterapia também é importante no auxílio tratamento. Psicoterapia ajuda a lidar com as consequências da depressão e a se reestruturar psicologicamente. Melhora o entendimento do processo da depressão, isso aumenta a dedicação ao tratamento. A psicoterapia também pode dar instrumental ao indivíduo para identificar e resolver conflitos, assim diminuindo o impacto provocado pelo estresse.

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Às vezes é necessário hospitalizar o deprimido para protegê-lo do risco de suicídio ou para cuidar de comprometimentos físicos ocasionados pela depressão. Em casos muito graves, com risco de suicídio ou que não respondem aos tratamentos convencionais pode ser indicada a eletroconvulsoterapia. Quando bem indicada, é um tratamento útil e eficaz.

Escrito por Dr Fernando Fernandes.

 

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